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Humor Médico-Legal

23 de maio de 2007 2.282 visualizações Nenhum Comentário Imprimir este artigo Imprimir este artigo

Sou lotado como legista na Delegacia Regional de Segurança Pública de Barbacena. Certo dia, encontrava-me de plantão nas dependências do IML, quando fui procurado pelo meu auxiliar, o Sr. Jayr Winter, que portava um saco plástico com forte odor nauseabundo e com a seguinte história: Dr., este saco foi encontrado por um cidadão no cemitério de… (cidade vizinha a Barbacena), que o encaminhou à PM. Esta, sem abrir o saco, o enviou à Delegacia de Polícia, onde nem o escrivão, nem o detetive e nem o delegado se animaram a abri-lo e examinar o conteúdo. Tiveram, então, a brilhante idéia de encaminhá-lo ao legista.
De fato, acompanhando o saco mal-cheiroso, encontra-se uma Requisição de Perícia Médico-Legal, devidamente assinada pela autoridade policial, onde se informava tratar de “material localizado no cemitério local, para exame, objetivando constatar se trata de carne humana ou feto, estando o material da mesma forma em que foi localizado”.
A uma distância prudente, orientei o Jayr a esvaziar o saco sobre a mesa de exame. Qual não foi nossa surpresa ao ver cair sobre a mesa um monte de peixes podres. Alguém foi pescar ou comprou os peixes num supermercado e por alguma razão perdeu, esqueceu ou desprezou o material no cemitério. Fulo da vida, o Jayr começou a xingar toda a corporação policial e fez menção de jogar os peixes no lixo. Foi quando me ocorreu que eu deveria proceder à perícia solicitada. De fato, sou perito oficial, havia uma requisição por parte da autoridade competente e por fim, ali na nossa frente, jazia no frio mármore o corpo de delito. Procedemos então, minuciosamente, à autópsia das piabas e elaboramos o respectivo laudo.

 

LAUDO NECROSCÓPICO

1) O material enviado para exame encontra-se acondicionado em saco plástico (tipo supermercado) e exala forte odor fético;
2) À abertura do recipiente constatamos tratar-se de 15 exemplares adultos de hyphessobrycon reticulatus ellis (vulgo lambari), peixes teleósteos caraciformes, da família dos caracídeos, medindo entre 5 e 12 cm de comprimento, em estado putrefativo inicial, compatível com cerca de 2 dias de óbito;
3) À dissecção cadavérica, todos os exemplares  exibiam:
a) secção céfalo-caudal, longitudinal, de localização mediana e ventral, acompanhada de evisceração total, compatível com preparo para fritura;
b) quelras com acentuada hiperemia de esforço;
c) nadadeiras amputadas previamente;
d) cloacas intensamente dilatadas;
e) ferida perfurante na região periorbicular, compatível com lesão por anzol.

CONCLUSÃO:

Face às circunstâncias, aos comemorativos e aos achados do exame de corpo de delito, parece-nos, “a priori”, haver elementos suficientes para caracterização de lambaricídio doloso, em série, com agravantes de premeditação (fritura), meio insidioso (retirada de meio líquido mediante ardil), meio cruel (morte por asfixia) associado a ocultação e vilipêndio de cadáver(es). Encaminha-se laudo à autoridade policial para adoção das medidas e diligências que o caso exige.

Cons. Renato A.R.S. Maciel
Médico patologista e legista.

Fonte: Jornaldocrm-mg – Março de 2007

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