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A heroína corrói a Rússia

15 de outubro de 2010 1.103 visualizações Nenhum Comentário Imprimir este artigo Imprimir este artigo

Le Monde

Marie Jégo
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Usuário de droga injetável, mulher injeta heroína; droga é considerada flagelo número um na Rússia. Mais mortífera que o terrorismo, mais destrutiva que o álcool, a heroína é o flagelo número um na Rússia, país de população instável, único Estado industrial onde a expectativa de vida caiu consideravelmente nesses últimos 30 anos (60 anos para os homens). Segundo o general Viktor Ivanov, chefe do serviço de combate às drogas, todo ano 30 mil pessoas morrem vítimas do consumo de heroína, ou seja, bem mais que o saldo de mortos (13.500) da guerra afegã-soviética (1979-1989).

Embora a produção mundial de ópio tenha caído (8.890 toneladas em 2007, 7.754 toneladas em 2009), a Rússia absorve 21% da heroína produzida no Afeganistão, ou seja, 70 toneladas por ano. Vladimir Putin nomeou um de seus mais fiéis aliados – Viktor Ivanov, ex-oficial da KGB, como ele – para chefiar o combate ao narcotráfico, em vão. Os serviços competentes apreendem somente 4% das cargas transportadas para a Rússia. Impotentes, os serviços de Ivanov se limitam a constatar que 2 milhões de jovens, com idade entre 18 e 39 anos, são consumidores regulares.

Essa “geração perdida”, principal vítima da contaminação pelo vírus da Aids, pode ser vista nas grandes cidades industriais dos Montes Urais, no coração do tráfego rodoviário, ferroviário e aéreo com a Ásia Central. A droga passa pela Rússia através da fronteira com o Cazaquistão, com 7.000 quilômetros de extensão, e difícil de ser controlada.

Na Ásia Central, a antiga rota da seda funciona sem parar. Os países pobres e minados pela instabilidade e pela corrupção, tais como o Tadjiquistão e o Quirguistão, são pontos de passagem obrigatórios. Osh, a grande cidade do sul do país, palco de violentos massacres anti-uzbeques em junho, está no centro do tráfico.

Um uzbeque originário de Batken (ao sul de Osh), preferindo manter-se anônimo, conta: “Desde o fim dos anos 1990, toda minha família vive do tráfico, uma verdadeira dinastia. Meus tios, meus irmãos, meus primos ganharam uma fortuna com o dinheiro da droga”. Em um país onde o salário médio não passa de 70 euros (R$ 163), o dinheiro da droga é uma tentação fácil. Comprado a US$ 1.500 no Afeganistão, o quilo da heroína atinge US$ 6 mil quando chega à fronteira do Cazaquistão, e US$ 50 mil em Moscou.

O Quirguistão, que em vinte anos foi palco de dois massacres étnicos (Uzgen em 1990, Osh e Jalal-Abad em 2010) e de duas revoluções (deposição do presidente Askar Akayev em 2005 e de Kurmanbek Bakiyev em abril de 2010), minado pela economia pálida e dependente de ajuda internacional, é um elo importante na rota da heroína. As cargas viajam da fronteira tadjique, ao sul, até Osh. De lá, duas vias são possíveis: para o Uzbequistão a oeste ou para o Cazaquistão ao norte. Para terminar na Rússia.

A divisão das tarefas se faz de acordo com as realidades étnicas do sul quirguiz: “Os uzbeques transportam, os quirguizes dirigem”, explica nosso interlocutor. Como em todo o espaço pós-soviético, as estruturas de segurança e os governadores de região estão envolvidos: “É impossível passar qualquer coisa sem o aval das autoridades locais, que recebem até 70% das transações”. Não é de se surpreender que o sul do país tenha visto a ascensão, nesses últimos anos, de barões locais prontos a desafiar o governo central.

Durante o mandato do presidente Bakiyev (2005-2010), originário do sul, o dinheiro da droga correu abundante. Em 2008, o presidente mandou fechar, sem maiores explicações, o serviço de combate ao narcotráfico do ministério do Interior. Em 2009, aboliu a Agência de Controle de Narcóticos. Ao mesmo tempo, criou um fundo de investimentos e de inovações, pouco preocupado em relação à natureza dos fundos investidos, colocando em sua direção seu filho Maxime. O presidente Bakiyev hoje vive exilado em Minsk, mas seus partidários ainda são muito poderosos. Dizem que seu irmão Janych, que dirigia os serviços de segurança, hoje passa a maior parte de seu tempo entre o sul quirguiz e o Tadjiquistão. Prova de que os pró-Bakiyev são fortes, seu partido Ata-Jourt venceu as legislativas do dia 10 de outubro. Esses “sulistas” agora são a principal força do novo Parlamento, ponta de lança do projeto de república parlamentar lançado pela nova presidente Roza Otunbayeva.

Talvez o parlamentarismo acalme a situação no cenário político quirguiz, mas não terá efeitos sobre o tráfico. “O maior problema é a corrupção”, acredita o analista russo Alexandre Zelitchenko, citado pelo jornal “Komsomolskaia Pravda” do dia 8 de outubro. Mesmo se o Tadjiquistão, o Quirguistão e o Cazaquistão começassem a controlar melhor suas fronteiras, a corrupção dos altos funcionários e dos policiais parece invencível na Ásia Central e na Rússia.

No dia 1º de julho de 2009, dois oficiais do “Narkokontrol” russo foram encontrados mortos por overdose nos recintos do centro de combate às drogas da região oeste de Moscou. A investigação se apressou em concluir uma “intoxicação alimentar”. Seria porque uma das vítimas, Konstantin Khrustalyov, era genro do general Korzhakov, veterano da KGB e ex-guarda costas de Boris Yeltsin? Não se contam mais os casos de cumplicidade entre traficantes e os serviços de segurança. O estranho nome dado ao serviço de combate ao narcotráfico talvez tenha algo a ver com isso: “Serviço Federal para Controle do Fluxo de Drogas”. Como se o problema não fosse impedir o tráfico, e sim controlá-lo!”

Tradução: Lana Lim

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